caso não seja imediatamente redirecionado, estou em http://escritacarmim.blogspot.pt/

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

viver tristes

o título do post anterior remeteu-me para a adolescência e para uma das frases mais odiadas de sempre por mim: "estamos a viver tristes".
a minha mãe tinha a mania de terminar os sermões com esta frase, quando me queria moer a cabeça.
"estamos a viver tristes", dizia ela.
e inisistia "estamos a viver muito tristes".
para mim a única tristeza era ter de a ouvir dizer isto, porque em bom português é uma frase sem sentido.
ninguém lhe tinha perguntado nada para que isto fosse uma resposta e como frase solta é estranhamente incompleta.
não me lembro porque é que a minha mãe me dava sermões, eu sempre fui atinada.
mas eu eliminei quase todas as recordações sobre a minha mãe.
crescer com uma mãe bipolar que assumidamente nos trata como um empecilho na sua vida tem destas coisas.
há uma mãe antes de eu ser independente e outra mãe depois de eu conquistar a minha independência e deixar de viver com os meus pais.
agora eu gosto da minha mãe e até acho que somos parecidas de cara.
não sei se gosto dela como se gosta duma mãe, mas isso nunca vou saber.
a minha mãe, às vezes, continua a ser uma cabra para mim.
mas eu já consigo relativizar e não ficar magoada.
normalmente é por telefone e eu desligo com um "agora não posso falar".
presencialmente é mais humana.
infelizmente acho que a minha mãe está a viver triste, como ela diria.
mudou-se para casa da minha tia, que à sua maneira consegue ser ainda mais mázinha que a minha mãe, e de resto só me tem a mim.
portanto, atura o veneno da minha tia e eu não lhe dou assim tanta atenção.
está velha, doente e aposto que gostava de estar ainda mais sozinha, ela sempre gostou de estar sozinha, mas agora está presa à irmã.
eu tento que ela dê o grito do ipiranga, digo-lhe sempre que volte para casa dela e viva a vida dela à maneira dela que a minha tia terá de compreender e que contará com o meu apoio.
claro que a minha tia não compreenderia e clamaria aos sete ventos tamanha ingratidão.
a minha tia está habituada a manipular as pessoas e não são os oitenta anos que carrega que a impedirão de agir como sempre agiu.
foram estas duas mulheres que me criaram, a bipolar e a raínha do gelo.
sei que parece crueldade referir-me a elas assim, mas eu própria tenho de lidar com a minha quota parte de traumas e ressentimentos.
seja como for gosto das duas, duma maneira que não sei se é o gostar de filha, mas que é como gosto delas.
e não queria que elas estivessem a viver tristes, mas acho que estão.

1 comentário :

  1. Nunca tinha ouvido tal expressão. Acho que sorte a minha. Mas também a mim não me parece fazer grande sentido. À tua maneira, o que importa é que vás vivendo de bem contigo,com a vida e que tu gostes de ti...

    ResponderEliminar