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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

a minha mãe

a minha mãe telefonou-me e não pude atender, o que em si não tem nada de especial.
o problema é que isto já foi ontem e ainda não consegui falar com ela.
ela não me vai voltar a ligar, faz uma espécie de jogo de terror psicológico para me fazer sentir que estou em falta, que sou má filha, que não lhe ligo nenhuma, etc.
a seguir vai ligar para o meu namorado, mas para mim não volta a ligar.
eu sei que ela está bem, mora ao lado dum café onde vai todos os dias e o café é dos pais dum colega meu de escola, portanto eu ligo para o café e sei que está viva e oferecem-se logo para subir ao 3º andar a confirmar.
mas ainda não liguei para o café, detesto fazer o papel de maluca, porque tenho estado constantemente a ligar lá para casa.
e eu sei que está em casa, na sala ao lado do telefone, a dormir com a televisão com o som à taberna, no volume máximo, eu consigo ouvir a Fátima Lopes quando entro no prédio.
a minha mãe e a minha tia, vivem juntas, duas surdas, portanto.
têm uns cinco telemóveis entre as duas, fora os que já perderam, todos desligados e arrumados nas caixas.
nunca ninguém conseguiu fazer com que aprendessem a utilizá-los.
telefone fixo sem fios também já existiu, mas nunca o punham a carregar.
voicemail nem perguntem.
de maneiras que o único telefone que existe e que funciona está no hall de entrada, preso à parede, no móvel  onde só há fotografias minhas e de pessoas que já morreram.
(creepy)
o meu namorado sugeriu instalar um sistema com uma luz, como se faz em casa de surdos, para saberem que o telefone está a tocar.
mas não me parece que vá resultar, o telefone tem uma luzinha que pisca quando elas não atendem uma chamada e elas também nunca veem essa luzinha.
eu é que sou uma má filha.
um dia passo-me e mando-lhes um telegrama.
escrito, porque o telefone não vão atender.

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