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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

cancrozinho

quando o meu pai morreu, num dia de abril, já não era o meu pai.
era um corpo esquelético e sem alma deitado numa cama.
a última vez que aquele corpo tinha tido uma centelha de vida era o dia dos meus anos.
e no dia dos meus anos, o meu pai moribundo regressou por momentos à vida.
tenho a certeza de que foi por mim, que apenas um grande amor seria capaz de tal milagre.
durante mais de um ano vi o meu pai morrer todos os dias.
e no dia em que finalmente aconteceu eu estava lá, à cabeceira, e vi a morte.
por isso não me venham dizer que não posso usar a palavra cancrozinho.
conheço o cancro há muitos anos, desde a infância.
já me roubou muita vida e muitas lágrimas.
mas não me há-de roubar a coragem.
não quero que recordem o meu pai com pena pelo que sofreu e pela doença.
quero que o recordem pelo homem grande que foi e por tudo o que fez.
o cancro não era o meu pai.

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