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quarta-feira, 22 de maio de 2013

{a avó ana}

nunca falo muito da avó ana porque não há muito a dizer.
só descobri a avó ana quando já era crescida, antes não nos tínhamos dado muito uma à outra.
quando eu era pequena as visitas à avó ana significavam tardes de brincadeira com a prima e o bolo de iogurte e o laço do avental da tia.
da avó podia contar com um cheque chorudo.
depois da minha prima nascer, a avó ana passou a viver com o filho mais velho e a nora na outra banda.
eu gostava de lá ir porque no regresso apanhávamos o cacilheiro no cais do ginjal e depois o autocarro verde de dois andares da carris da praça do comércio até casa.
sei que a avó ana era teimosa e que gostava de tudo arrumado e limpinho.
que gostava de perfumes e talcos e cremes.
e que era generosa.
a avó ana teve o primeiro filho aos dezassete e enviúvou aos vinte e um tinha acabado de ter o terceiro, o meu pai.
o avô antónio, de quem nem o meu pai antónio se lembrava, morreu num acidente de trabalho na construção da linha ferroviária.
a avó ana não teve uma vida fácil, viúva com três filhos no alentejo dos anos 40.
talvez por isso tenha aprendido a esconder os sentimentos e eu sinta que nunca cheguei a conhecê-la bem.
a avó ana usava carrapito e camisas com golas bordadas e nunca perdeu o sotaque alentejano nem largou o luto.
a avó ana era a única diabética que eu conhecia e deixava-me brincar com as tiras-teste.
dizia selada em vez de salada e pintiar em vez de pentear e fazia renda como ninguém.
ela bem nos tentou ensinar, às duas netas, mas eu nunca fui paciente nem prendada de mãos e a minha prima não passou do cordão e dos buracos.
a avó ana morreu velhinha e acarinhada e agradeço à minha prima todos os cuidados que sempre teve com ela.
ao longo dos anos os papeis foram-se invertendo e quem cuidava da avó era a neta.

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