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quarta-feira, 17 de julho de 2013

{vizinhança}

gosto de viver num bairro, mas não faço vida de bairro.
não frequento o café, apesar de ir lá quase todos os dias tomar uma bica ao balcão, não frequento a igreja, não tenhos filhos na escola nem na catequese nem na ginástica, não tenho carro e por isso não faço ideia de quais são os carros de quem.
moro aqui há uma vida e só há bem pouco tempo a vizinhança soube o meu nome.
um dia entrei no mini mercado com o meu homem e mandei-o à parte de charcutaria pedir paio do lombo fatiado.
tal como o nome indica, o mini mercado é grande e quando chegou à parte da charcutaria o andorinha já não se lembrava ao que ía e gritou "ó .... é paio ou presunto?".
foi viral.
no dia seguinte trataram-me pelo nome no mini mercado, na pastelaria e na papelaria.
não é coisa que me preocupe, mas de alguma maneira deu-lhes abertura para me irem perguntando sobre a minha vida pessoal de vez em quando.
não levo a mal, sou exímia a desviar conversa, exceto no que à minha vizinha cusca respeita, essa mesmo sem falar incomoda-me seriamente.
apesar de tudo a minha cusca nunca teve o descaramento da vizinha do meu homem, que um dia o apanhou a jeito e lhe mostrou a ficha toda sobre mim.
e como é que ela sabia tanto se moramos a 5 km um do outro?
perguntando.
e porque a nora trabalhava numa loja de roupa ao pé da paragem do autocarro onde entrei uma única vez sem ter comprado nada.
as secretas deviam era contratar gente desta.
também estou preocupada com a minha cusca, já voltei há uns dias e ainda não me cruzei com ela.
facto inédito, porque se a memória não me falha, ela apanha-me sempre a entrar com as malas de viagem e faz de conta que quer ajudar e pegar numa, o que eu não deixo porque acho que ela vai fingir que a deixa caír a ver se se abre e descobre que tipo de cuecas uso.
pronto, isto para dizer que uma das filhas do meu homem parece que anda de namorico com alguém aqui do bairro e a coisa não me agrada.
também houve aquela vez em que pintei o cabelo de castanho ao fim de onze anos loura e depois de se ter cruzado connosco na garagem - mudei de cor de cabelo, não mudei de corpo nem de cara - outra das vizinhas do meu homem lhe foi perguntar se tinha trocado de namorada.
e houve também aquela vez em que tive uma insónia e resolvi ir para o emprego às seis da manhã, liguei para o táxi do bairro e vai-se a ver o taxista estava-se a divorciar e a tia da ex-mulher era vizinha da minha mãe e antes do meio dia já a minha mãe me estava a ligar porque eu andava metida com o taxista.
é por estas e por outras que eu adoro ter vizinhança.
(not)

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